Durante décadas, o rastreamento do câncer de mama seguiu um modelo baseado em recomendações gerais aplicadas a toda a população feminina conforme a faixa etária. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, médico radiologista, observa que esse paradigma está em transformação, dando lugar a uma abordagem personalizada que considera o risco individual de cada mulher para definir quando começar, com que frequência repetir e quais métodos utilizar no rastreamento, um movimento que representa o futuro da prevenção e que tende a tornar a detecção precoce mais eficiente e mais justa.
As limitações do modelo único para todas
O modelo tradicional de rastreamento, que estabelece a mesma idade de início e o mesmo intervalo de repetição para todas as mulheres, tem o mérito da simplicidade e da aplicabilidade em larga escala, mas apresenta limitações importantes. Mulheres com perfis de risco muito diferentes acabam sendo tratadas da mesma forma, o que pode significar rastreamento insuficiente para algumas e excessivo para outras.
Uma mulher com histórico familiar expressivo, mutação genética e mama densa tem necessidades de vigilância completamente distintas de uma mulher sem fatores de risco e com mama predominantemente adiposa. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues aponta que aplicar a mesma recomendação a ambas é ignorar diferenças biológicas substanciais que impactam diretamente a probabilidade de desenvolver a doença e a eficácia dos diferentes métodos de detecção em cada caso.
O que considera o rastreamento personalizado?
O rastreamento personalizado parte da avaliação de múltiplos fatores que, combinados, definem o risco individual de cada mulher. Entre esses fatores estão a idade, o histórico familiar de câncer de mama e de ovário, a presença de mutações genéticas conhecidas, a densidade mamária, a idade da primeira menstruação e da menopausa, o histórico reprodutivo e a presença de lesões prévias de risco identificadas em biópsias anteriores.
A partir dessa avaliação, é possível estratificar as mulheres em diferentes níveis de risco e ajustar o protocolo de rastreamento de forma proporcional. Como detalha Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, mulheres de alto risco podem se beneficiar de início mais precoce, intervalos mais curtos e combinação de métodos como ressonância magnética e ultrassom, enquanto mulheres de risco habitual seguem o protocolo padrão, evitando exames desnecessários e a ansiedade associada a investigações que não trariam benefício proporcional.

O papel da genética e da tecnologia na individualização
Os avanços na compreensão da genética do câncer de mama têm sido determinantes para viabilizar o rastreamento personalizado. A identificação de mutações nos genes BRCA1, BRCA2 e em outros associados ao risco oncológico permite reconhecer precocemente mulheres que demandam vigilância intensiva, muitas vezes antes mesmo da faixa etária convencional de início do rastreamento populacional.
Paralelamente, ferramentas de cálculo de risco que integram dados clínicos, familiares e de imagem estão se tornando mais sofisticadas e acessíveis. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues ressalta que esses modelos, cada vez mais apoiados por inteligência artificial, permitem estimar o risco individual com precisão crescente, oferecendo ao médico uma base objetiva para personalizar a recomendação e à paciente uma compreensão mais clara da sua situação específica diante do câncer de mama.
Os desafios da implementação no sistema de saúde
Apesar do potencial transformador, a implementação do rastreamento personalizado enfrenta desafios concretos, especialmente em sistemas de saúde com recursos limitados. A avaliação de risco individualizada demanda tempo, capacitação profissional e acesso a testes genéticos e a métodos complementares de imagem, recursos que ainda não estão universalmente disponíveis na rede pública brasileira.
Diante desse panorama, Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues argumenta que a transição para um modelo personalizado precisa ser gradual e equilibrada, garantindo que os ganhos em precisão não aprofundem as desigualdades de acesso já existentes. O futuro da prevenção é, sem dúvida, individualizado, mas a meta deve ser oferecer essa personalização a todas as mulheres, e não apenas àquelas com maior poder aquisitivo, para que o avanço tecnológico se traduza em benefício coletivo e equitativo.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

